segunda-feira

Necessidade



Vi ele pela primeira vez no Shopping, em uma preguiçosa tarde de terça-feira e se eu acreditasse em amor à primeira vista diria que foi isso que aconteceu conosco, quer dizer, pelo menos de minha parte. As pessoas passavam quase indiferentes a ele, não que ele não fosse bonito ou coisa do tipo. Vez ou outra, alguém parava para contemplar aquela beleza extasiante que poucos conhecem e entendem. Ele parecia se divertir com toda aquela cena, talvez um de seus objetivos fosse causar isso nas pessoas, a primeira impressão. Mas eu logo percebi, ele tinha muito mais a mostrar. Precisava tê-lo perto de mim, precisava descobri seus segredos. Necessitava. Prometi a mim mesma que faria de tudo, ou quase tudo, para tê-lo.

E consegui. Mesmo assim me mantinha distante. Fazia de tudo para preservá-lo. Namorava-o a distância. Tinha medo do encanto se quebrar, sempre penso no fim das coisas antes delas começarem... Meu namorado começava a ficar com ciúme. Às vezes, eu passava mais tempo com o outro do que com ele. Sempre explicava que o outro era meu amigo para todas as horas, explicava que precisava do outro assim como precisava dele, e cuspia um monte de explicações para acalmá-lo até ficar convencido. Não era necessário tudo isso, mas eu gostava de fazer drama e ele adorava, se divertia com isso. Sempre quando não estava com ele, estava com meu amigo, para dizer a verdade, estávamos quase sempre juntos, nos tornamos praticamente inseparáveis.

Eu o tratava como se fosse meu prêmio e não fazia a mínima questão de exibi-lo a outras pessoas, que poderiam ser muito chatas e intrometidas. Emoção, paixão, alegria, tristeza, surpresa,  tudo isso pude sentir com ele e ficará para sempre em minha memória. Por fim terminei de lê-lo e fiz questão de colocá-lo em um lugar de destaque na estante, para sempre me lembrar. Agora ele está com outros conhecidos que passaram pela mesma situação enquanto estavam comigo. E amanhã é dia de Shopping novamente...
Esse meu amigo, para quem não entendeu, é um livro, ok?! 


quarta-feira

Namore uma garota que lê


Date a girl who reads – Rosemary Urquico
Adaptação – Gabriela Ventura

Namore uma garota que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela também tem problemas com o espaço do armário, mas é só porque tem livros demais. Namore uma garota que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca desde os doze anos.
Encontre uma garota que lê. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido na bolsa. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a única que surta (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma garota estranha cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas.

Ela é a garota que lê enquanto espera em um Café na rua. Se você espiar sua xícara, verá que a espuma do leite ainda flutua por sobre a bebida, porque ela está absorta. Perdida em um mundo criador pelo autor. Sente-se. Se quiser ela pode vê-lo de relance, porque a maior parte das garotas que leem não gostam de ser interrompidas. Pergunte se ela está gostando do livro.

Compre para ela outra xícara de café.
Diga o que realmente pensa sobre o Murakami. Descubra se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entenda que, se ela diz que compreendeu o Ulisses de James Joyce, é só para parecer inteligente. Pergunte se ela gosta ou gostaria de ser a Alice.
É fácil namorar uma garota que lê. Ofereça livros no aniversário dela, no Natal e em comemorações de namoro. Ofereça o dom das palavras na poesia, na música. Ofereça Neruda, Sexton Pound, cummings. Deixe que ela saiba que você entende que as palavras são amor. Entenda que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade mas, juro por Deus, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco como seu livro favorito. E se ela conseguir não será por sua causa.

É que ela tem que arriscar, de alguma forma.
Minta. Se ela compreender sintaxe, vai perceber a sua necessidade de mentir. Por trás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. E isto nunca será o fim do mundo.

Trate de desiludi-la. Porque uma garota que lê sabe que o fracasso leva sempre ao clímax. Essas  garotas sabem que todas as coisas chegam ao fim.  E que sempre se pode escrever uma continuação. E que você pode começar outra vez e de novo, e continuar a ser o herói. E que na vida é preciso haver um vilão ou dois.

Por que ter medo de tudo o que você não é? As garotas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Exceto as da série Crepúsculo.

Se você encontrar uma garota que leia, é melhor mantê-la por perto. Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e apertando um livro contra o peito, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas, mas ela sempre vai voltar para você. E falará como se as personagens do livro fossem reais – até  porque, durante algum tempo, são mesmo.
Você tem de se declarar a ela em um balão de ar quente. Ou durante um show de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Ou pelo Skype.
Você vai sorrir tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Vocês escreverão a história das suas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos mais estranhos ainda. Ela vai apresentar os seus filhos ao Gato do Chapéu [Cat in the Hat] e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto você sacode a neve das botas. 

Namore uma garota que lê porque você merece. Merece uma garota que  pode te dar a vida mais colorida que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe  monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser o mundo, e outros mundos além, namore uma garota que lê.

Ou, melhor ainda, namore uma garota que escreve.


Para quem lê:




Fui viver e... volto logo!
É com esse(s) belíssimo(s) texto(s) que me despeço de vocês. Chegou a hora de 'fechar a porta, mudar o CD, limpar a casa e sacudir a poeira'. Não consigo, e temo que nunca conseguirei abandonar este espaço, que não parece, mas para mim é muito importante. Bom, não é necessário muito drama e despedidas, pois em breve estarei de volta (ou não!). Não tomarei toda a xícara de chá de sumiço, então, uma vez ou outra aparecerei por aqui e por aí. 




Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...