quarta-feira

"A lembrança serena de uma dor passada..."

    Ela não se importava com fato dele não gostar de Bob Dylan, não conhecer Belle & Sebastian, nunca ter ouvido falar do Damien Rice, e não aguentar mais o James Blunt.  Mas ele sempre respeitou seus gostos, nunca tentou mudá-los, fez um esforço considerável para ouvi-los juntamente com ela e acabou descobrindo que grande parte das músicas desses cantores e bandas são perfeitas para se ouvir em uma tarde nebulosa de inverno (que diga-se de passagem eram os dias preferidos dela), mesmo que isso fosse para lá de melancólico. 
    Ele sempre reconheceu o esforço dela em acompanhá-lo em eventos sociais, e por mais que isso custasse muito para ela com sua personalidade antissocial, e um tanto misantropa, ela nunca reclamou. Pelo menos não muito. Ele, às vezes preferia ficar em paz, com ela, só com ela, mas era obrigado a frequentar lugares, conhecer pessoas que não o agradava nem um pouco, isso fazia parte de seu trabalho.
    Ele assistia pacientemente aos documentários do National Geographic e do Discovery Channel, que ela tanto gostava de ver e logo depois discutir como se aquilo fosse muito interessante, e com o tempo foi o que acabou sendo para ele, ou eles.
    Ela o acompanhava nas sessões de filmes de ação e ficção científica no cinema, e embora preferisse os clássicos, acabava se contagiando com toda a empolgação dele e vez ou outra saia do cinema mais extasiada do que ele. Algumas vezes, ambos arriscavam um romance atual, e nenhum dos dois comentavam quando não conseguiam segurar as lágrimas (até ele, vejam só!), apenas sorriam um para o outro e isso era tudo o que precisavam.
    Ele descobriu que aquela mulher/garota que demonstrava frieza e indiferença poderia ser tão sensível e delicada com algo sensível e delicado. Mas sabia que poucos tinham a felicidade de conhecer esse lado tão esplêndido. Ela descobriu que por baixo de toda aquela espontaneidade e felicidade, havia um homem/garoto que tinha sentimento reais, que chorava sim quando era preciso (e às vezes quando não era) e que não tinha vergonha de admitir isso.
    Muitas outras coisas poderiam ser escritas sobre o que ele e ela aprenderam um sobre o outro, mas isso se tornaria deveras um trabalho cansativo e talvez fosse melhor irmos para o fim.   Pois é, como sempre depois de um tempo(muito tempo quando comparamos com a duração dos relacionamentos atuais), eles se desencontraram. Alguns diziam que eles eram perfeitos demais um para o outro,  aquilo dos opostos se atraírem. Eles nunca pensaram isso, não se “atraiam”, eles se gostavam de uma forma que só quem está sentindo ou sentiu pode saber. Poderiam até mesmo pensar que eles se acomodavam um ao outro, bom, isso pode ser verdade. Algumas vez acontecia, era inevitável. Aliás, a acomodação é inevitável em qualquer relacionamento. E apesar de ambos terem maturidade o suficiente para reconhecer as rachaduras e pontos desgastados do relacionamento foi difícil a separação. Eles eram bons uns para os outros, mas algumas coisas simplesmente não dão certo depois de um tempo. Prologaram o fim o quanto puderam, e de repente sem planejamento nenhum se viram conversando abertamente sobre ele. Como dizem por aí, a separação foi amistosa.  O que aconteceu na fase pós-fim-de-relacionamento dos dois foi o mesmo que sempre acontece com tantos outros casais que se separam. Creio que você já passou por isso, se não, prepare-se, logo não preciso descrever essa fase tão tangível e desgastante aqui, não quero  prolongar a narrativa.
    Tempo. Ah, o que seria de nós sem ele? Não digo que ele curou todas as feridas, pois não houve tantas a ponto de formarem cicatrizes, mas algo que sempre nós castiga são as lembranças. E para os dois elas permaneceram por muito mais tempo do que gostariam. Se encontraram depois de algum tempo.... muito tempo. Tomaram caminhos muito diferentes, e enquanto ele se consolidava em seu trabalho sendo promovido a cargos elevados, ela mergulhou de cabeça nos estudos (como se isso fosse mais possível). Ainda viviam na mesma cidade, mas quase nunca tinham tempo para os encontros marcados pelos amigos em comum. Esses se perguntavam se aquilo não era apenas desculpas de ambos para não se encontrarem, mas quando indagados sobre essa questão desconversavam, e os amigos não insistiam.
    Mundo pequeno esse, não? Em um dia nubloso de inverno, se encontram ao acaso em uma livraria. Ficaram sem reação por um momento (e quem não ficaria?), logo depois se cumprimentaram. De frases monossilábicas acabaram em algum lugar por aí tomando um café, e conversando sobre coisas fúteis no começo, depois seguiram um caminho perigoso quando começaram a relembrar do passado. Então, começaram a falar sobre suas vidas atuais que tinham deixado de lado e evitado desde o início da conversa: ele estava com outra e ela estava com outro. E isso era tudo, um novo começo, sabiam que o que tiveram não sairia de suas lembranças por um bom tempo (ou nunca, vai saber!), é como disse certo autor: "o coração elimina as más lembranças e enaltece as boas e graças a este artifício conseguimos suportar o passado". Mesmo com tudo o que aconteceu no passado, em algum momento ambos foram quebrados por dentro em pequenos pedaços devido a uma dor a qual eles mesmo se expuseram, mas o mundo continua e com ele a vida... mas, "nossas digitais não se apagam das vidas que tocamos."

 


6 comentários:

  1. "O coração elimina as más lembranças e enaltece as boas e graças a este artifício conseguimos suportar o passado"
    Gostei muito dessa frase. É o sempre fazemos, peneiramos as lembranças... E a vida continua!

    ResponderExcluir
  2. Vim aqui deixar um presente pra vc,
    meu selinho em comemoração aos 500 seguidores do blog.

    Espero que goste e leve-o!

    Beijos meus...
    segue o link do meu carinho a vc:
    http://momentosdapathy.blogspot.com.br/2012/07/meu-muito-obrigada.html

    "Que seja doce..."

    ResponderExcluir
  3. Gostei desse texto :)
    Parece história real...
    Eu tenho lembranças dessas coisas... Eu não sei se as minhas digitais ainda ficam nas pessoas, mas as delas ficam em mim. Isso é um tanto quanto injusto às vezes...
    Se por um lado me ensina a viver, por outro me deixa com medo de viver. É um dilema que me mantém imóvel...
    De novo estou falando sobre mim no blog dos outros... mas é que seu texto me fez refletir sobre essas coisas.
    Você escreve bem ^^

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Parece? rs O que você disse são as marcas indeléveis que as pessoas nós deixam durante nossa curta passagem... Entendo bem, tanto que por vezes tal sentimento também me imobiliza. Imagine... Fique à vontade. Que bom que gostou do texto e obrigada. (:

      Excluir

Comente! Don't be afraid, apenas let it be.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...