sexta-feira

Daquilo que ganhamos, perdemos e reconstruímos...





Lá estava ela em seu estado habitual. Sentada em um banco, sozinha. Não, sozinha não. Estava com um amigo, um grande amigo: um livro. Mas isso para muitos não significa grande coisa. Evitava sempre ler os pré-conceituados chick-lits em público, pois não seria apropriado receber o apelido de louca ao já notável, solitária. Mal sabia ela que observando-a a uma relativa distância, estava algumas pessoas que mudariam seu mundo. Fariam ele flutuar nas alturas para depois apenas planar pelo ar, muitas vezes fazendo grandes pausas em terra firme...

Era um dia normal quando essas pessoas decidiram agir. O céu estava azul e o Sol majestoso, uma linda tarde de verão. Essas pessoas não pediram licença ao invadirem seu espaço vital, foram logo a enchendo de perguntas, assuntos variados, brincadeiras. O que queriam dela? O que ela tinha a oferecer-lhes? Era só uma garota que gostava de ficar em paz consigo mesma, longe de todo o resto, e todo o resto aqui significa pessoas. Ah, mas que seres insistentes! Foram tantas as investidas contra sua bolha de cristal que uma pequena rachadura surgiu. Por vezes ansiava conversar com eles, queria estar lá, contando piadas idiotas, fazendo parte de algum grupo. Sua "outra" sempre a aconselhava a voltar para seu mundinho de gelo, seu coração precisava dele para ficar congelado. Tanto calor poderia ser prejudicial. Será que ela não sabe que é muito difícil recongelar qualquer coisa? 

Tantos questionamentos... Tentava se afastar um pouco, estava se entregando muito. Ficava muda de uma hora para outra. Momentos de vitória da "outra". Mas não durava muito. Logo lá estava ela, fazendo algum comentário ácido sobre situações cotidianas, e todos riam... Ficava feliz com a felicidade deles. Esse foi o tempo em que ela flutuava nas alturas. 
Porém... Sempre há um porém. Os tempos mudam, não é mesmo? Adolescentes se transformam em adultos, alguns responsáveis, outros nem tanto. No momento só a certeza de que cada um seguiria sua vida. E foi isso que fizeram. Vez ou outra reuniam-se para relembrar os tempos antigos. Tempos de loucura e de delírios compartilhados. Mas sempre precisavam ir embora cedo, pois tinhas obrigações no dia seguinte. Adultos responsáveis, lembra-se? 

Tentou consertar sua bolha de cristal. Que ingênuidade! Não sabia ela que cristal quebrado não se cola jamais? Recongelar então... Difícil, muito difícil. Adquiriria uma nova bolha de cristal, ora pois. Ah, as coisas não são tão descomplicadas assim. Ainda mais quando já se provou o que a felicidade em demasia poderia nos proporcionar. Solução! Vamos, uma solução urgente! Gritava sua dor latejante. Sua "outra" não estava nem um pouco disposta a ajudar no início, só entoava o bordão: Eu bem que te avisei. Mas isso também a feria, logo teve que unir-se em busca de uma solução. Queria outra bolha de cristal, já! Ou melhor, porque não uma bolha daquele vidro mais resistente que o metal? Boa ideia, não?! 
No fim, ela seguiu com a sua própria vida. Agora, uma adulta com compromissos importantes, leia-se, trabalho e estudos. E não é que trocou o cristal pelo tal vidro resistente?! A diferença é que dessa vez ela se permitiu criar uma pequena janela no tal vidro. Assim sempre que outras pessoas chegassem e chacoalhassem o seu mundinho ela poderia sair, divertir-se... Mas, sempre precisaria voltar para aquele auto-exilio. Isso é de sua natureza, mais forte do que ela e até mesmo mais que a "outra". Além do que,   convenhamos, reconstruir não é tão fácil quanto supõe os textos motivacionais.





14 comentários:

  1. Não sei o que comentar, sinceramente. Mas vai uma pergunta: O que ela se tornou depois dessa experiência, desse vinculo de amizade? Penso que se arrepender de ter permitido isso, ela não tenha, porque senão ela não teria permitido, outra vez, uma janela em sua bolha de vidro.

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    1. Ela se tornou uma pessoa que sabe o que é perder algo que gostou muito e que, talvez, nunca terá novamente. Pelo menos não do mesmo jeito. Como uma onde no mar, entende?
      A janela na bolha de vidro foi estratégica. Assim, não precisará passar por todo aquele processo de digerir o sentimento de abstinência da felicidade. Ela sabe que acontecerá outra vez, e ela espera que realmente aconteça. Mas aí, é só ela abrir a janela e voilà, ser feliz. Depois, voltar para seu mundinho quase irrefutável.

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    2. Talvez poderá ter de volta mais intenso do que antes, isso porque já deve conhecer como é as coisas, ou não! Nós sempre achamos que sabemos como vai acontecer algo e sempre somos surpreendidos pelo tal. Então ela não se arrependeu, ainda mais porque espera que acontece novamente, talvez do mesmo jeito, talvez vez de um jeito diferente. Nunca se sabe!

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    3. Pois é, Luiz. Ela não se arrependeu. Seria muita petulância da parte dela pensar isso. Onde já se viu se arrepender de ter sido feliz? Vamos torcer por ela. Para que aconteça, sim, novamente. Quiçá, até melhor dessa vez, pois ela aproveitará cada momento sabendo que ele é único e que não voltará.

      "Nada do que foi será
      De novo do jeito que já foi um dia
      Tudo passa, tudo sempre passará"

      (:

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  2. Gessy, auu!
    Eu juro que esse texto é sobre você, obvio não?
    So, essa bola de cristal todos nós temos ela, usamos de vez em qdo e qdo qro sair dela, é pq tem alguem me cutucando pra acordar pra realidade e sair do meu mundinho fofo e leituroso... Portanto, eu não queria ele todo quebrado, quero recongelar... talvez... Ah sua bela poesia me conqsta


    Rafael Fernandes (@rafa__rafa)
    www.LeiturasVivas.com

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    1. Essa é uma boa pergunta. Prefiro deixar na imaginação do querido leitor a resposta. Essas bolhas de cristal fazem parte da vida de muitas pessoas. Algumas nunca conseguem se livrar dela, o que é o caso da personagem.
      Ah, Rafa, recongelar é muito difícil! O melhor é começar tudo de novo, sabe? Mas dessa vez com a destreza de trocar por o cristal por algo mais resistente, mas de igual beleza.

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    2. Prefiro começar de novo então... A beleza sempre vai ser diferente, nunca igual...

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    3. Comece! Pensando melhor, concordo com você. A beleza sempre será diferente. (:

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  3. No mínimo nostálgico.
    Pude ver um emaranhado de lembranças que se desenrolavam junto com o conto *-*
    me pareceu verídico haha

    www.luliskd.blogspot.com

    Segue e deixa um comentário tmb? *-------*

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  4. "Melancolia
    Maneira romântica de ficar triste."

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  5. Humm...
    Enigmático como são a maioria das coisas que me atraem, rs. Bom texto para se ler na madrugada.
    E acredite, você fala pra muitos com essas palavras...

    Sabe, leio seu blog também, rs.

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    1. Enigmático? Uau!
      Muitos passaram, passam ou passarão por situação semelhante. Embora eu não deseje isso para ninguém.

      Então nós "nos lemos".

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