sábado

Superioridade relativa




        “Sempre a julgam pelo que ela parece ser, nunca além disso. Sempre a olham apenas superficialmente. Sempre se perguntam o porque de suas atitudes e ações sem considerar que para isso é necessário ver além da superfície morta e opaca que ela representa. Mas em vez de se darem a esse trabalho, preferem julgar sem realmente conhecer. E quem não faz isso, não é mesmo?
Ela por sua vez guarda profundas cicatrizes em sua vida, embora esteja a tão pouco tempo nesse mundo. Ela sempre diz para quem quiser ouvir que não é normal, e a maioria ri pensando que isso é apenas mais uma de suas ironias. Que ilusão! Ela realmente não é normal. Nem um pouco. Não porque ela se ache melhor do que todos. Longe disso. Mas sim porque ela está marcada como poucas pessoas já estão. Poucas ou muitas, não se sabe. O mundo de hoje é sempre uma surpresa.
Por muito tempo ela sepultou em uma lápide muito profunda de sua alma lembranças de tempos tenebrosos. Tempos de tristeza e desilusão. Tempos em que ela quase criou moradia no fundo do poço. Tempos que há muito ela tenta esquecer. 
Vocês têm noção do que é uma criança de apenas doze anos sem vontade de viver? Não. Não dá para imaginar isso, não é mesmo? Pois saibam que não é algo fácil. Vocês sabem o que se passa na cabeça dessa mesma criança quando tudo o que ela acreditava se transforma em pó, e ela é obrigada a enxergar o mundo com os olhos de um adulto? Bem, talvez dê para vocês terem uma mera noção disso. E novamente , não é fácil. 
Ela prefere não ressuscitar suas lembranças do tempo em que sofria bullying por vários motivos, fúteis como sempre são nos casos de bullying. Até por que suas lágrimas já secaram há muito tempo e porque isso já não passa de uma vaga lembrança em sua memória. Vaga mas que ainda existe e vem à tona às vezes, quase raramente. Ninguém sabe dos momentos em que ela chorava até não poder mais, simplesmente porque se achava fraca, inútil, e tudo o que a apelidavam. Ah, como ela queria ser qualquer outra pessoa naqueles momentos. 
E então, veio umas das piores fases. É aquela onde as feridas já foram abertas e estão a  cada dia se estendendo mais e mais. Foi ai que ela se descobriu sozinha no mundo. Isso pelo menos era o que ela pensava. Não tinha amigos. Sua família de nada desconfiava. Mas como poderiam? Ela guardava essa dor somente para si. E mesmo com as frequentes indagações de sua família sobre seu comportamento fechado e recluso, não deixava transparecer que era mais do que isso. Deixava todos pensarem que ela era apenas mais uma garotinha tímida, só isso. Ela então viveu na mais completa dor durante muito tempo. Tudo o que sentia era vontade de chorar, de não viver mais e descontava parte disso na comida. Fato que aumentou os apelidos maldosos sobre ela. E para tentar esquecer um pouco disso tudo, concentrava-se nos estudos. E assim seguiu por um tempo.
Mas ela estava enganada sobre uma coisa. Ela não estava sozinha. Tinha alguém que estava sofrendo com ela e que queria ajudá-la. Muitos chamam de Deus, outros de Jesus, mas para ela essa pessoa era mais que isso, era Sua Amiga. Embora muitos duvidem disso, pelo simples fato dela não praticar nenhuma religião, isso não signifique que ela não tenha fé e não acredite nessa Força Maior. "Força" que está muito, mas muito, acima dela e de todos, e que ela realmente acredita. 
Ela acredita que foi essa "Força" que a ajudou a se reerguer. Foi essa "Força" que jogou a corda que a puxou do fundo do poço. E foi essa mesma "Força" que a fez voltar os olhos para si mesma e ver quem ela realmente era. Que não era nada do que falavam. Era muito mais do que aquilo. E que deveria se valorizar, gostar de si mesma, pois ela também era especial, ao seu modo, e ainda é. Essa "Força", ou como queiram chamar, foi algo que para ela serviu e muito naquele momento, então ela se agarrou fortemente a esse ideal de superação.
Depois disso veio a fase do renascimento. Fase em que passou a se valorizar. A não se deixar mais abalar por simples comentários cheios de veneno e ódio que ainda laçavam contra ela. Ela tentou ser mais forte, ou pelo menos aparentar mais força, tanto interior quanto exterior. Mudou alguns de seus hábitos, tentou ser mais sociável. Embora isso não tenha dado muito certo, pois até hoje ela abomina completamente todas as pessoas. Acha todo mundo hipócrita e falso, mesmo sabendo que nem todos são assim, mas quem somos nós para julgá-la por seus pensamentos?! Ela sabe que quem a ajudou a se reerguer não aprova esses pensamentos e com muito, mas muito esforço ela está tentando mudar. 
Hoje se ela diz que já teve início de depressão, as pessoas riem na sua cara. E isso a alegra. Sabe por que? Porque isso mostra o quanto ela superou essa fase. Não dá para imaginá-la em toda a sua arrogância e superioridade passando por isso tudo. Mas quem poderia imaginar, não é mesmo? Apenas ela sabe o que viu, sentiu e viveu. Somente ela. Ah, e Ele, é claro.
Mas é como nos dizem: nunca devemos julgar o livro pela capa. O mesmo se aplica a ela. Deveriam ver que apesar da casca dura ainda há um organismo por baixo, mesmo que morto. Quem realmente é superior, já percebeu isso há muito, muito tempo.”

5 comentários:

  1. Em alguma parte ai, entendo como ela se sentia. Esse foi um dos melhores que já li aqui. ÓTIMO MESMO. *-*

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  2. Acho que com o tempo, nós mesmos, vamos nos deparando com o espelho. Nos olhando, mais profundamente e reconhecendo as qualidades.

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  3. PARABÉNS MUITO LINDO O TEXTO.
    ACHEI MUITO LEGAL MESMO. =)

    BEIJOS.

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  4. Olha que lindo isso ! Apaixonei. Perfeito . :D

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  5. A última vez que vim aqui, não confessei o espelho...........

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